Sunday, November 12, 2006
Tuesday, November 07, 2006
Sol a Sol: duas mulheres e um retrato sonoro do Brasil


Duas artistas bastante premiadas em suas carreiras – ambas vencedoras de festivais importantes e respectivamente, finalista e semifinalista do Prêmio Visa, em suas versões intérpretes e compositores, Lucila Novaes e Cristina Saraiva se reúnem para a realização desse trabalho.
Se considerarmos ainda os arranjos de um expert como Maurício Maestro, e a seleção de músicos que acompanha a cantora avareense - Leandro Braga, Luiz Brasil, Adriano Giffoni, Jorge Helder, André Mehmari, Marcos Feijão, Márcio Malard, Marcelo Bernardes, João Carlos Coutinho e muitos outros do mesmo nível, o resultado não poderia ser outro: um CD com um repertório cuidadosamente montado, com letras especialmente bem elaboradas, musicalmente impecável.
Lucila Novaes é uma cantora de voz primorosa: uma intérprete onde a perfeição de sua técnica vocal não apaga a enorme dose de emoção que permeia sua interpretação. Seus dois trabalhos anteriores Frestas do Céu e Claridade, se caracterizam por um repertório de MPB de alta qualidade, mesclando artistas consagrados – como Chico Buarque, Djavan, Lenine, com outros menos conhecidos.
Cristina Saraiva é uma letrista já bem conhecida no meio musical. Sua característica principal talvez seja a de levar adiante a tradição de uma MPB refinada, sem aderir a modismos, sem nenhum traço pop - hoje predominante em trabalhos de MPB, e sem pretensões de vanguarda. “Meu compromisso não é com o novo. É com o belo”, reconhece.
Não por acaso, seu CD anterior, Só Canção, conta com a participação de artistas consagrados da MPB, como Chico Buarque, Leila Pinheiro e Ná Ozzetti. Um exemplo raro de artista que segue uma linha clara de composição, ainda que passeando por diversos estilos.
Essa pluralidade, aliás, se reflete como nunca em Sol a sol: ciranda, samba, choro, toada, baião, ritmos que estão marcados em nosso imaginário, e que fazem deste, um trabalho essencialmente brasileiro - talvez pela capacidade de Saraiva de se relacionar e firmar parcerias com artistas de diversas regiões do País.
Sol a sol traz um pouco de parcerias já antigas, e apresenta ainda novos encontros da letrista.
Entre as parcerias que vêm de CDs anteriores, o carioca Felipe Radicetti, co autor da canção “O louco”, uma das poucas faixas desse CD onde aparece claramente a profunda veia romântica da letrista; Rafael Altério, parceiro em “Chão de espinho” uma canção, na música e na temática, com forte traço do interior paulista; e o craque Théo de Barros que assina a sensível e brejeira “Parceira antiga”
Entre as novas parcerias, a faixa Recomeçar, parceria com o consagrado Francis Hime, é uma das mais belas, e por que não dizer, audaciosas do disco. Um samba cantado em dueto, com participação especial do próprio Francis, onde as duas vozes se entrelaçam cantando letras em parte diferentes, em parte coincidentes, mas com sentidos diversos.
Faixa título e a música de abertura do disco, “Sol a sol” é uma parceria com um dos instrumentistas mais talentosos surgido no Brasil nos últimos tempos: o pianista André Mehmari que prova que além de um grande músico, é também um compositor surpreendente.
A letra, que revela diferentes realidades bem brasileiras, já aponta para essa característica principal do trabalho: um CD visceralmente brasileiro, em todos os sentidos.
